http://tabajaras.com

Conheça um pouco da história do Esporte Clube Tabajaras Imprimir e-mail
Escrito por Administrator   
29-Mai-2008

Em Ouro Preto, cidade histórica do interior de Minas Gerais, um clube ficou famoso na última década. Mais pelo nome do que pelos títulos. O Esporte Clube Tabajaras ganhou fama e visibilidade na região ao ter a imagem ligada automaticamente ao "Tabajara Futebol Clube", time fictício criado pelo "Casseta & Planeta" e considerado o pior do mundo!

Fundado em 11/11/1945, o Tabajaras era considerado um clube normal na cidade. Mas passou a ter projeção devido ao grupo humorístico. E junto com ela veio a reviravolta. O clube se reestruturou, adquiriu uma sede própria e conseguiu voltar a disputar a Primeira Divisão do campeonato municipal de Ouro Preto.

- O clube ganhou mais visibilidade. E isso possibilitou conseguir amistosos, jogos de camisa, material esportivo... Tudo porque o nome ficou em evidência. E uma coincidência é que quando o Casseta lançou o quadro a gente tinha um presidente chamado "Cleyson", que era o mesmo nome do personagem - disse Antônio Mendes "Negão", que é coordenador geral do clube.

 

Mas as brincadeiras dos rivais também vieram em grande escala.

 

- No estádio rolam as brincadeiras. Quando a gente perde, principalmente, por um placar mais expressivo, as pessoas falam que esse Tabajaras é o do Casseta & Planeta, e não o de Ouro Preto. Isso sempre acontece. Parece que a palavra Tabajaras ganhou um novo significado. Mas as brincadeiras são gostosas. Nada ofensivo. E sempre tivemos as nossas brincadeiras também. Durante uma época, os veteranos elegiam a "vaca do jogo" para quem pisava na bola ou fazia alguma bobagem. A gente também absolveu isso - completou Negão.

 

--------------------------------------------------------------------------------

O lema do Tabajaras é: 'Ser derrotado e não se render é uma vitória'

--------------------------------------------------------------------------------

 

E antes mesmo de surgir a fama de pior time do mundo com o programa humorístico, o Tabajaras enfrentava um dilema com uma frase de um militar polonês chamado Pilsndski, que passou a ser o lema do clube: "Ser derrotado e não se render é uma vitória".

- Ela faz parte do clube há uns 30 anos. Não sei quem teve a idéia. Alguns acham a frase derrotista. Há uma grande corrente de pessoas que quer mudá-la. Mas não tenho coragem de fazer isso. A derrota faz parte do jogo. E acho uma vitória continuar com o mesmo empenho e a mesma garra para seguir buscando a vitória - disse Negão.

E-mails são enviados ao clube com sugestões de novas frases. Mas o ex-jogador do Tabajaras Adriano Sérgio, conhecido também como "Chiquitão", também defende a permanência do lema.

- Falam que a frase é derrotista, que é para baixo, que foi colocada lá por alguém que não gosta de vitórias. Eu acho que não. Quem colocou deve ter tido os seus motivos.

 

Tabajaras é inspirado no São Paulo

Image
Bandeira Tabajaras

Fachada da sede do Tabajaras, em Ouro Preto O Tabajaras foi criado em 1945. Idéia de um comerciante paulista que se mudou para Ouro Preto e era torcedor do São Paulo. A camisa é praticamente igual à do Tricolor. Apenas o escudo fica no lado esquerdo do peito. Uma exigência do clube paulista na época em que ajudou o Tabajaras doando seis jogos de camisas e outros materiais esportivos. Gentil de Souza foi o primeiro presidente do clube.

No cofre de uma auto elétrica da cidade ficam guardados documentos históricos como o livro com a primeira ata do Tabajaras. Também há algum material esportivo como bolas, kit de massagista e camisas. No canto, não poderia faltar um disco antigo do Casseta & Planeta. Os livros, já amarelados por causa do tempo, não explicam a origem do nome. Tabajaras era o nome de uma tribo indígena no Brasil. Teoricamente, seria a explicação mais lógica, já que na região há vários times inspirados nos índios como Guarany, Tupi, entre outros. Mas o comerciante Roberto Peret, de 78 anos, um dos mais antigos torcedores do clube, tem outra explicação.

- Tabajara era o nome de um cinema em São Paulo que o fundador do clube gostava muito de freqüentar - disse:

A sede do Tabajaras fica em uma casa simples, localizada na Rua Manuel Izaías de Carvalho, número 47, comprada com muito esforço em 2002 com doações dos torcedores e simpatizantes do clube. Na fachada, há o escudo do clube e o lema "Ser derrotado e não se render é uma vitória". No local funciona um bar e tem uma mesa de sinuca.

Na parede da sede, uma reportagem tem destaque ao falar sobre o primeiro título municipal conquistado pelo clube em 1971. Outra da década de 40 também chama a atenção. Trata-se apenas de um amistoso contra o Guarani, que acabara de nascer. Mas a matéria se refere ao Tabajaras como "forte esquadrão".

Jornal de 1946 anuncia o duelo entre o "forte esquadrão" do Tabajaras e o Guarani

 

Image

 

--------------------------------------------------------------------------------

O Tabajaras foi três vezes campeão ouro-pretano (1971/1987/1993) e duas vezes campeão da Copa Januário Carneiro

--------------------------------------------------------------------------------

As 26 taças conquistadas pelo clube ficam em um canto da sede. Junto com elas, uma folha de papel com uma frase de Ayrton Senna: "No que diz respeito ao empenho, ao compromisso, ao esforço, a dedicação, não existe meio-termo. Ou se faz um coisa bem-feita ou não se faz".

Image
As taças conquistadas pelo Tabajaras ficam em um canto da sede

As taças conquistadas pelo Tabajaras ficam em um canto da sede - O primeiro título do Tabajaras foi em 1971, sendo campeão invicto. Levou 26 anos. Depois o clube voltou a ser campeão em 87 e em 93. Todos de forma invicta. O nosso título mais expressivo foi a conquista da Copa Januário Carneiro, que foi uma competição entre cidades da região. Era uma Copa do Mundo para nós, do amador. É uma conquista que realmente nos enche de orgulho. O Tabajaras chegou a ser até homenageado no Mineirão - disse Negão.

As três estrelas colocadas acima do escudo do clube significam justamente os três títulos municipais do Tabajaras. Mas Negão admite que o clube coleciona um número expressivo de derrotas. Até pouco tempo o clube estava na Segunda Divisão do Campeonato Municipal de Ouro Preto.

- Quase todo troféu que a gente tem lá na sede é de vice. A gente, infelizmente, tem isso na história. Temos bons títulos, mas também colecionamos um número expressivo de vices. Prefiro falar assim. Não vamos falar de derrotas. Estou tentando mudar isso, de chegar às finais e não conseguir conquistar os títulos - disse o dirigente.

Para afastar o azar, nada melhor do que destacar as vitórias. Por isso, o hino do Tabajaras, composto por Alcindo Alves Filho, começa com uma estrofe positiva: "Nós somos campeões invictos, outros títulos conquistamos!"

Lelão é o craque do time principal

 

Image
Garotos do Tabajaras treinam em campo de terra

 

Tabajaras disputa o Campeonato Ouropretano Como fonte de renda, o Tabajaras vende camisas por cerca de R$ 200. Flâmulas também são comercializadas por R$ 50. Mas os produtos não são encontrados em lojas da cidade ou na sede. São vendidos para torcedores e admiradores do clube durante a temporada.

É assim que o clube consegue trazer alguns reforços para disputar o Campeonato Ouro-Pretano. A estrela do time atualmente é o atacante Lelão, que foi vice-artilheiro no ano passado. Ele recebe R$ 100 por partida mais a passagem de ida e volta de Viçosa, cidade onde mora, que fica a 121km de Ouro Preto.

- A minha vontade era estar em um time profissional, mas Deus não quis assim. Não jogo profissionalmente, mas sou bem-sucedido no futebol amador - disse Lelão, que nunca fez contagem de gols e não tem idéia de quantos já marcou.

Durante a semana, Lelão não tem tempo para treinar. Procura apenas fazer exercícios físicos para manter a forma.

- A vida é muito corrida. Procuro só manter a forma e faço musculação em uma academia. Sempre que posso tento dar uma corrida também.

Lelão passou a jogar no Tabajaras após se destacar em um campeonato amador na região. Recebeu a proposta e aceitou sem ligar para as brincadeiras por causa do nome do clube.

- Já brincaram comigo por ser o atacante do Tabajaras. É vivendo e aprendendo. Mas graças a Deus sou bem-sucedido - garante.

--------------------------------------------------------------------------------

Atual prefeito do Rio, César Maia já enfrentou o Tabajaras

--------------------------------------------------------------------------------

 

Um fato curioso da história do Tabajaras é o fato de o atual prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, ter enfrentado o clube na década de 60. Estudante de Engenharia na Universidade Federal de Ouro Preto, César Maia jogou no time da Associação Desportiva da Escola de Minas (Adem) e também no Guarany.

- Realmente joguei pela Adem - confirma César Maia, sem lembrar do jogo contra o Tabajaras.

O jornal de Ouro Preto, na sua edição de dezembro de 1967, traz uma reportagem da transferência do então jogador para o Guanary. Na época, César Maia, que jogava como ala-esquerda, explicou o motivo da mudança de clube: "A equipe da Adem é formada por uma mescla de estudantes de todas as origens e eu acho que isso impede que exista na equipe ardor e vontade de vencer." E também faz a tradicional promessa de vitória: "O que prometo à torcida alvirrubra é o máximo de luta pela conquista do título de campeão de 1968."

Jogadores com nomes de craques nas divisões de base .

Garotos do Tabajaras treinam em campo de terra Além do time principal e da equipe de veteranos, o Tabajaras também tem divisões de base. Um trabalho mais social, em que qualquer criança pode aparecer para treinar. Há apenas uma lista de controle. Os melhores são chamados para os jogos. São quatro categorias: mirim, infantil, juvenil e juniores. Atualmente, cerca de 50 crianças treinam no clube.

 

Image
Técnico Fernando Nonato dar instruções ao time

 

O campo é simples. Na maior parte, de terra batida. Onde há grama, geralmente está alta e a bola rola com dificuldade. Quase não se vê a marcação. Mas há gente com nome de craque jogando por ali. Como Matheus e Lineker.

- Meu nome é em homenagem ao jogador alemão Lotthar Matheus (um dos maiores ídolos do futebol alemão), que jogou a Copa do Mundo de 1990. Meu pai quis homenageá-lo. Treino há um ano e sonho ser jogador profissional - disse Matheus, de 14 anos, que joga como meia-esquerda.

- Ganhei o meu nome por causa do jogador da Inglaterra (Gary Lineker, que fez dez gols em duas Copas do Mundo), que se destacou muito na Copa. Ele resolveu prestar uma homenagem - disse Lineker Cupertino, de 14 anos, que nasceu em 1994, ano em que a seleção brasileira acabou com o jejum de 24 anos e conquistou o tetra. - O meu pai não gostava muito da seleção brasileira. Ele não queria que meu nome fosse Romário ou Bebeto.

Lineker revela que pensa seguir a tradição quando tiver um filho. E o jogador já foi escolhido. Ronaldo? Robinho? Adriano? Alexandre Pato? Que nada...

- Será Cristiano Ronaldo. Ele está jogando muito.

Estréia do time infantil no Campeonato Ouro-Pretano

 

Image
Fernando conversa com os jogadores no intervalo

 

Técnico Fernando Nonato dá instruções ao time O GLOBOESPORTE.COM acompanhou a estréia do time infantil do Tabajaras no Campeonato Ouro-Pretano. O jogo é contra o Ouro Preto Tênis Clube. Os garotos chegam cedo ao único estádio da cidade, que fica em uma das poucas áreas planas de Ouro Preto, cerca de três minutos de carro do centro. Tem capacidade para cerca de dois mil torcedores e normalmente recebe um público razoável todo fim de semana. Não há cobrança de ingresso para as partidas. No vestiário, os jogadores escutam atentos as instruções do técnico Fernando Nonato.

- Temos que controlar essa ansiedade, essa espécie de desespero e pane que dá em vocês em determinados momentos. Eles vão querer golear a gente. Olha o vexame que o Atlético-MG passou (ser goleado por 5 a 0 pelo Cruzeiro na final mineira). E vocês não querem isso, querem? Então vamos suar a camisa. Quero muita luta, muita vontade, muita garra. Mas sempre respeitando o adversário e a arbitragem. O bicho pega hoje aí - disse durante a preleção.

Antes da partida, os jogadores fazem uma roda no gramado e rezam. O goleiro Pablo vai além. Ele se ajoelha em campo, fecha os olhos e com as mãos juntas na altura do peito também tem um momento de fé. O jogo começa, e o Tabajaras está na defesa. Não demora muito a sofrer o primeiro gol. O empate vem em uma cobrança de pênalti. Dener bate bem no canto direito do goleiro: 1 a 1. No fim do primeiro tempo, o goleiro Pablo salva o Tabajaras de sofrer o segundo gol. Após uma jogada pela esquerda, ele defende dois chutes seguidos no reflexo.

Estamos parecendo o Atlético-MG, pô! O Atlético-MG tem 15 escanteios por partida e não faz um gol, não manda uma bola na trave. Tem que caprichar mais"

No intervalo, os jogadores sentam no banco de reservas para descansar. E escutam as instruções ali mesmo enquanto chupam laranjas.

- Os caras são ruins. Vamos para cima. Perdemos três gols. Precisamos desses gols - disse Fernando Nonato, que até comparou o time ao Atlético-MG ao reclamar dos erros do setor ofensivo. - Ficamos quatro horas treinando falta e escanteio. E nada. Estamos parecendo o Atlético-MG, pô! O Atlético-MG tem 15 escanteios por partida e não faz um gol, não manda uma bola na trave. Tem que caprichar mais - disse o treinador.

A conversa continua. E a bronca passa a ser com os homens de meio-campo.

 

Image
Tabajaras disputa o Campeonato Ouropretano

 

Fernando conversa com os jogadores no intervalo - Cadê os meus homens de meio-campo? Vão ficar assistindo ao jogo? Lugar disso é com a torcida lá, uai! Ainda colocam as mãos nas cadeiras assim. Isso é jogo para vocês deitarem e rolarem. Um campinho gostoso desse, uma bolinha gostosa dessa, essa manhã ótima. E com o adversário ainda pedindo para a gente matar o jogo - completou.

 

O Tabajaras volta com mais disposição para o segundo tempo. E em um clube em que tudo parece ser diferente, o número 13 é sinal de sorte. Mandinho se aquece. Está ansioso para entrar. Logo nos primeiros toques na bola, ele mostra habilidade. E após um cruzamento da esquerda, Mandinho, o camisa 13, completa de primeira para o gol. É o segundo gol do Tabajaras, que vira a partida. Ele sai comemorando com o "créu, créu, créu", mas é logo repreendido pelo treinador. Ele faz um sinal pedindo desculpas para o banco. Mandinho nem sabe que o árbitro no final dá o gol para o companheiro Hendy, já que a bola desviou no atacante após o chute.

O tempo passa e o técnico do Ouro Preto Tênis Clube vai à loucura. Ele gesticula, grita, fala palavrões, parece não acreditar no resultado. Em alguns momentos chega até entrar em campo. Após ver o time perder mais um gol, coloca as mãos na cabeça.

 

- Nossa senhora! Assim não dá! Que droga - disse.

 

Image

 

Time infantil do Tabajaras parte para o ataque O atacante Ricardo tem a chance de garantir a vitória do Tabajaras, mas tenta driblar o goleiro e perde o gol. É quando acontece o castigo. O goleiro Pablo faz uma defesa fácil e tem o controle da bola. Mas quer colocá-la rapidamente em jogo. O chute sai errado e pára na intermediária nos pés do adversário, que domina e chuta. A bola vai no ângulo direito do goleiro, que ainda se estica, mas não alcança. É o empate do Ouro Preto Tênis Clube.

- Um colega de time me pediu para jogar a bola para fora porque estava machucado. Acabei chutando de qualquer jeito e ela foi no pé do adversário. E eles fizeram o gol de empate. Tenho que aprender com os erros - explica o goleiro Pablo, de 15 anos, que estuda no colégio estadual Dom Veloso e garante nunca ter sofrido gozações por ser o camisa 1 do Tabajaras.

O jogo termina dois minutos depois de o Tabajaras sofrer o empate. Os jogadores saem de campo de cabeça baixa e chateados. Mas recebem o apoio de Negão e do técnico Fernando Nonato.

Já escutei muito por ser o treinador do Tabajaras. Sempre tem uma gozação. Mas o respeito dos adversários pelo clube é muito grande"

- A equipe ainda é muito inocente. São garotos que treinam em um campo de terra. Quando chegam aqui no estádio, eles têm mais dificuldade e sentem o peso. Dizer que a gente vai chegar a uma final de campeonato é difícil. Se eles acreditarem, nós temos chance. De qualquer forma, o resultado é uma vitória de um grupo que quer vencer, e mostrou que tem condições de lutar - disse o técnico Fernando Nonato, que não liga para as brincadeiras em cima do nome do clube. - Já escutei muito por ser o treinador do Tabajaras. Sempre tem uma gozação. Mas o respeito dos adversários pelo clube é muito grande. E o Tabajaras está sempre mostrado essa força. Somos um clube que tem tradição no esporte amador de Ouro Preto.

Questionado se o time já foi goleado alguma vez, o treinador ri. E com humildade e simplicidade, conta apenas a vitória.

- Isso eu não lembro. Mas no ano passado, o nosso time de juniores venceu por 12 a 0! Foi uma vitória daquelas (risos) - garantiu.

E assim o Esporte Clube Tabajaras vai escrevendo a sua história.

Actualizado em ( 03-Jun-2008 )
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >